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Textos
O pós-pós: novos caminhos da prosa brasileira no século XXI Godofredo de Oliveira Neto Coordenação Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Melhor flutuar pelas asas da reflexão poética no intermédio, entre o exposto e o expositor, livre de todo [...] interesse, e potenciar sempre novamente es ta reflexão e multiplicá-la como numa série infindável de espelhos. Friedrich Schlegel
O livro é um mundo. O crítico experimenta, diante do livro, as mesmas condições de fala que o escritor diante do mundo. Roland Barthes Uma constatação que decorre da leitura de todos quantos se debruçam sobre a Literatura Brasileira das duas últimas décadas do século XX é a de que aqueles textos atravessam a fronteira da arte literária. Essa ficção não pressupõe leitura literária. O autor não parece preocupado em fazer ou não literatura, nem tampouco em traçar um limite explícito entre realidade e ficção. Essa literatura, pela perda gradativa das categorias literárias, é denominada, por alguns pesquisadores, literatura pós-autônoma (Ludmer, Garramuño, Kamenszain). O eixo da pesquisa ora proposta é, pois, o estabelecimento das linhas orientadoras da literatura pós-autônoma com vistas a poder alcançar a tendência que se insinua no final da década atual, tendência aqui denominada pós-pós. Pretende-se construir um corpus representativo da prosa brasileira contemporânea, recorrendo à lista de romances estudados por um leque significativo de universidades brasileiras. Busca-se, dessa forma, evitar a subjetividade na elaboração do conjunto de autores escolhidos. Essa jovem e dispersa tendência, que poderíamos intitular pós-pós, volta-se para a exposição de relações humanas mais delicadas e consentâneas da necessidade de uma sociedade menos bestializada, sociedade que o pós-modernismo, por excesso de individualismo de uma economia liberal vencedora, acabou por priorizar. Do ponto de vista das categorias literárias sente-se o retorno tímido do emprego metafórico e simbólico da linguagem e dos demais elementos que o estruturalismo fixou a partir do século XX. Em relação à forma do romance, chama a atenção, por exemplo, o retorno singelo, mas não menos sintomático, do travessão indicando a fala dos personagens, como em Heranças (2008), último romance de Silviano Santiago, onde, aliás, não consta o emprego do palavrão, situação particularmente distinta do romance brasileiro dos últimos vinte anos. Não menos sintomático, outrossim, é a referência à gramática no último livro de Chico Buarque, Leite derramado (2009), ainda que em tom algo irônico. Esse emprego da língua portuguesa mais próximo da chamada norma culta vem sendo detectado por linguistas (AZEREDO, 2008). Todorov em seu polêmico livro-ensaio A literatura em perigo (2007) aponta para a necessidade de libertar a literatura do “espartilho asfixiante em que está presa, feito de jogos formais, queixas niilistas e ‘umbiguismo’ solipsista”. A busca da delicadeza e a recusa do individualismo e da postura niilista apontam inegavelmente para uma nova ficção distante da selvajaria urbana. A tendência da narrativa atual é revelar, portanto, esse novo homem que, diante da tragicidade do universo contemporâneo, busca a reconciliação e a harmonia. As novas diretrizes literárias parecem se originar por uma razão, portanto, social, ambiental e econômica – como reação positiva às intempéries contemporâneas – e por outra relacionada à própria produção ficcional já farta da prosa violenta, crua, estéril. Na era do ecologicamente correto, da sustentabilidade, da parceria, da retomada de posturas mais ascéticas ou, para usar a nomenclatura atualizada, mais recessionistas, surge uma narrativa para além dos limites agonizantes do trágico; uma prosa imersa na delicadeza, menos “umbiguista” e mais poética ou, simplesmente, da “Beleza, Graça, Emoção, Simetria e Harmonia” (Candido, 1987) objeto dessa pesquisa que não pretende se ater às marcas claramente delineadas nas páginas da literatura pós-moderna, mas se voltar para as raízes de uma ficção que dá seus primeiros, mas determinantes, passos. Por outro lado, a tendência, aqui chamada de pós-pós, talvez em função de representar manifestação ainda relativamente recente, não recebeu a devida atenção por parte dos estudiosos. Não constitui tarefa simples reconhecer tal tendência dentro do emaranhado de publicações ficcionais que diariamente chegam às livrarias do Brasil. Entretanto, em uma observação mais detida dessas narrativas que ora chegam ao mercado, pode se constatar uma tendência que minimiza a forma fragmentada, preocupando-se especialmente com a língua padrão, ao mesmo tempo em que tais narrativas perdem em crueldade e ganham em delicadeza. A partir desse esgotamento, que aos poucos se insinua, em relação aos constituintes da literatura pós- moderna: violência estética e temática, linguagem crua, narrativa fragmentada, mistura de gêneros, uso de gírias e palavrões, podemos perceber a importância de produzir um trabalho, de abrangência do território nacional, que retrate essa recente tendência que denominamos pós-pós. Equipe: GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO - Coordenador Professor de Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
CARINA FERREIRA LESSA Mestranda em Letras Vernáculas (área de concentração Literatura Brasileira) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). CRISTIANE TEIXEIRA DE AMORIM Doutoranda em Letras Vernáculas (área de concentração Literatura Brasileira) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bolsista do CNPq – Brasil JORGE LUIZ MARQUES DE MORAES Doutorando em Letras Vernáculas (área de concentração Literatura Brasileira) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Colaboradores:
VIVALDO ANDRADE DOS SANTOS Associate Professor; Portuguese and Latin American Literature Department of Spanish and Portuguese - Georgetown University
RAQUEL CRISTINA DOS SANTOS PEREIRA Doutoranda em Letras Vernáculas (área de concentração Literatura Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Editora da Revista Teia Literária Bolsista CAPES
Projeto associado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC - UFRJ).
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Raquel Cristina dos Santos Pereira |
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Publicado em 21/04/2010 às 18h21
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